O que é o Acordo de Paz para a Palestina e Israel e o que está em jogo

Por Bibiana Waquil Campana*


Foto: © Middle East Eye


A região que hoje abrange a Palestina e Israel é um território histórico de disputa pela terra, palco de tensões que se acirram quando foi declarada a criação do estado de Israel em 1948. Desde então, diversos conflitos irromperam em virtude do avanço israelense e da tentativa palestina de retomada dos territórios históricos.


No dia 28 de janeiro deste ano, o presidente estadunidense Donald Trump divulgou, ao lado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o chamado “Plano de Paz” para o Oriente Médio. A proposta concede a Israel reivindicações históricas, enquanto oferece às autoridades palestinas o rumo a um Estado próprio, mas sujeito a tantos condicionantes que tornam seu cumprimento improvável. O chamado “Acordo do Século” proíbe a construção de novos assentamentos e prevê investimento internacional na estruturação política e econômica do estado palestino, mas exige das autoridades palestinas o reconhecimento de Jerusalém como capital indivisível de Israel e habilita o país a aplicar soberania sobre os territórios palestinos e anexar a região do Vale do Jordão, hoje Palestina. Poucos dias depois da divulgação do plano de paz, a Autoridade Palestina rompeu relações com os Estados Unidos e Israel e o presidente Mahmoud Abbas declarou que seguiria apostando em um processo de paz, desde que fosse regulado por um mecanismo internacional e não apenas através de Washington.


Em abril, Benjamin Netanyahu, do partido conservador Likud, e Benny Gantz, líder da oposição e membro do partido centrista Azul e Branco, firmaram acordo de governo de coalizão pondo fim à crise política que se estendia no país há um ano e meio e que resultou em três processos eleitorais. O pacto de emergência nacional para se alternarem no cargo de primeiro-ministro se deveu à crise sanitária e econômica ligada à pandemia do novo coronavírus. Contudo, na esfera internacional, o programa da coalizão veio marcado pelo firme compromisso de impulsionar a anexação parcial da Cisjordânia a partir de 1º de julho.


Apesar de ter passado quase três anos em elaboração, a proposta foi vastamente criticada pela comunidade internacional e encontrou opositores em diversos setores da sociedade israelense, inclusive nos mais conservadores, como o Conselho Yesha - organização abrangente de conselhos municipais de assentamentos judaicos na Cisjordânia, que é apoiada por partidos de direita no Knesset, o parlamento israelense -, por prever o estabelecimento de um Estado palestino nos territórios da Cisjordânia, chamados em termos bíblicos de Judea e Samaria.


A administração de Trump se dispôs a propor soluções para questões historicamente controversas, como o status da cidade de Jerusalém, a questão dos refugiados palestinos e pautas de segurança e fronteira, mas não foi estabelecido um processo de negociação entre os dois países. A solução “realista” dos dois Estados, como chamada pela administração americana, ainda que se proponha a “ajudar as pessoas dos dois países a curar as feridas criadas pelo conflito”, não garante uma resolução política duradoura.


Pelo contrário, o apoio estadunidense a Israel vem há anos criando as condições para a implementação do plano de anexação. Já em dezembro de 2017, o governo Trump reconheceu Jerusalém como capital do Estado judaico, seguido pelo corte do financiamento de ajuda humanitária para refugiados palestinos, em agosto de 2018, e o fechamento da missão diplomática palestina em Washington, em setembro do mesmo ano. Em março de 2019, a administração estadunidense reconheceu a anexação ilegal dos territórios ocupados das Colinas de Golã, na fronteira com a Síria, e em novembro de 2019 declarou o reconhecimento dos assentamentos ilegais na Cisjordânia como território israelense, culminando no lançamento do plano de anexação em janeiro de 2020.

Ao contrário dos Estados Unidos, a comunidade internacional continua negando qualquer legitimidade aos assentamentos e condena a anexação de território ocupado, com os países da Liga Árabe à frente. Mesmo países europeus tradicionalmente aliados de Israel vêm tentando bloquear as medidas propostas, e na última semana mais de mil parlamentares europeus de diversos espectros políticos de 25 países diferentes assinaram documento opondo-se firmemente ao processo de anexação da Cisjordânia.


Vejamos, a seguir, os principais pontos abordados no acordo, que a partir de hoje, 1º de julho, deve ser colocado em votação no parlamento israelense.


A questão de Jerusalém


Conforme remonta a proposta de paz, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel assume o controle sobre todos os locais sagrados de Jerusalém e vem, desde então, mantendo o que chama de “status quo religioso” - ainda que a mídia local noticie diariamente casos de violência e agressão. Nesse sentido, o plano de paz defende que Jerusalém permaneça a capital de Israel - reconhecida pelo governo americano em dezembro de 2017 - e permaneça uma cidade indivisa, sugerindo que a capital do Estado palestino seja estabelecida em todas as áreas a leste e a norte do chamado Muro da Cisjordânia - construção que divide Jerusalém Oriental dos territórios palestinos e se estende por toda a fronteira com o estado judaico - e propondo que se chame “Al Quds”, nome árabe da cidade de Jerusalém. Dessa forma, reconhecer outra localidade, que não Jerusalém, como capital palestina é ignorar a importância histórica e religiosa da cidade para o povo palestino e é também apagar parte da história da cidade.


Foto: © Al Jazeera


O acordo propõe, ainda, que o livre acesso a todos os locais religiosos de todas as fés nos dois Estados deve ser acordado e respeitado por ambas as partes. Contudo, já nos dias de hoje, milhares de palestinos da Cisjordânia são negados o direito de conhecer a cidade mais antiga do mundo se não portaram de autorização de residência ou de vistos de trabalho e visita, dificilmente concedidos pela administração civil israelense na Palestina. Com o controle de Israel sobre todas as fronteiras dos enclaves palestinos - conforme é abordado posteriormente no tópico “A questão da segurança” - nada garante que esse direito de movimento será concedido aos palestinos; os israelenses, por outro lado, já circulam livremente por grande parte dos territórios da Cisjordânia.


A questão do Vale do Jordão


O acordo defende que a paz não deveria demandar a remoção de pessoas - árabes ou judeus - de suas casas e que tal conceito acaba por incitar movimentos populares, o que vai contra a ideia de coexistência. Contudo, segundo divulgou o IMEU - Instituto para o Entendimento do Oriente Médio -, grandes cidades palestinas nos territórios ocupados serão divididas e separadas em enclaves pequenos e isolados, conforme ilustra o mapa abaixo. Para tal, o documento prevê a construção de corredores que liguem os enclaves palestinos uns aos outros, à Faixa de Gaza e aos territórios ao sul do deserto do Negev, que devem ser concedidos ao governo palestino, a fim de reduzir a necessidade de checkpoints e qualificar a mobilidade, qualidade de vida e comércio para os palestinos. Também, prevê que o desenho das fronteiras nos termos do Mapa Conceitual anexo ao Plano de Paz deve ser feito através de reivindicações individuais de título ou direito à propriedade tradicionalmente pleiteados no sistema judicial israelense - ao qual os palestinos dificilmente têm acesso.


Foto: © Peace to Prosperity


Como pode ser observado, cada enclave palestino estará rodeado por território israelense, muros e checkpoints militares, uma vez que o plano prevê o controle e monitoramento de Israel sobre todas as fronteiras do Estado da Palestina. Aproximadamente 65 mil palestinos vivem no Vale do Jordão e vão continuar sob o controle militar brutal e antidemocrático, como o fazem desde 1967.


O plano prevê ainda que as populações palestinas localizadas nos enclaves dentro do território judaico anexado não receberão cidadania israelense e serão reconhecidos como cidadãos palestinos, mas devem ter o direito de permanecer onde estão, garantindo que não sofrerão discriminação e que terão acesso a segurança - ao que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou “não querer anexar nenhum palestino aos territórios israelenses”. Entretanto, hoje existem mais de 130 assentamentos israelenses em toda a Cisjordânia, que abrigam aproximadamente 635 mil colonos judeus. Além de serem construídos em terras palestinas, os assentamentos afetam a vida dos palestinos diariamente. Centenas de checkpoints militares e outros impedimentos engajados em beneficiar e privilegiar os colonos judeus também fazem parte da paisagem, tornando qualquer deslocamento difícil e perigoso para os palestinos e oficializando o estado de apartheid. Dessa forma, o que garante que os palestinos ilhados nos enclaves israelenses não continuarão sendo agredidos, assediados e tendo o acesso a recursos boicotado pelo Estado israelense e pelos vizinhos nos assentamentos?


O documento ressalta ainda que o governo israelense deve trabalhar em conjunto com o governo palestino na negociação de um acordo no qual os empreendimentos agrícolas pertencentes a palestinos continuem a funcionar sem interrupção ou discriminação, nos termos de licenças ou concessões concedidas pelo estado de Israel. Hoje, o Vale do Jordão constitui metade da terra fértil palestina e é o principal canal de acesso à água do Rio Jordão. Mesmo antes da anexação, os colonos israelenses na região já recebem em média 18 vezes mais água do que os palestinos - a maior parte dos agricultores não está conectada à grade de água e depende da compra de caminhões-tanque.


Para além das condições amplamente divulgadas na mídia internacional, o Plano de Paz propõe ainda a resolução de pautas importantes como o debate em torno dos refugiados, dos presos palestinos e da Faixa de Gaza, abordadas a seguir.


A questão dos refugiados


O plano de paz refere que o conflito árabe-israelense teria criado tanto um problema de refugiados palestinos quanto judeus, sugerindo que um número de refugiados judeus parecido com o montante de refugiados palestinos expulsos do território há mais de 70 anos teria sido expulso de terras árabes pouco depois da criação do estado de Israel. Contudo, o documento sugere que como a maior parte dos judeus foram assentados permanentemente em Israel, o Estado judaico mereceria uma compensação de custos por absorver os refugiados - ainda que tanto a fundação do Estado israelense, quanto a sua manutenção tenha dependido e dependa, hoje, do assentamento de judeus internacionais.


Para os refugiados palestinos, no entanto, o plano determina o fim do direito ao retorno ou absorção de refugiados palestinos em território israelense. Aqueles que forem elegíveis para acessar quaisquer direitos sob o Acordo de Paz Palestino-Israelense devem ter o status de refugiado registrado pela UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente) na data da publicação da proposta. Contudo, o documento enfatiza que a partir da assinatura do acordo o status de refugiado palestino vai deixar de existir, a UNRWA vai ter o mandato concluído e as responsabilidades serão transferidas para os respectivos estados de acolhimento.


Foto: © Al Jazeera


Conforme ilustrado no mapa acima, existem hoje mais de 1.5 milhão de refugiados palestinos vivendo em 58 campos de refugiados ao redor dos territórios palestinos e dos países vizinhos. Se hoje a maior parte dos palestinos está fora da Palestina, não é por escolha, mas em virtude do assédio e da violência sofridos e do controle israelense de todas as fronteiras do Estado palestino. O plano estadunidense prevê que uma parcela do financiamento internacional angariado pelo Plano Econômico de Trump, parte da Proposta de Paz, deve ir para a substituição de campos de refugiados ao redor do Estado da Palestina por projetos de habitação. Define ainda a formação de um comitê de israelenses e palestinos para endereçar questões envolvendo refugiados palestinos vindos de países hostis ao estado de Israel, como a Síria e o Líbano, e resolver disputas excepcionais sobre a entrada de refugiados na Palestina. No entanto, em um contexto em que o próprio plano de anexação deve ser posto em prática unilateralmente, as decisões envolvendo o reassentamento de refugiados palestinos precisarem do aval israelense é mais um desrespeito à autonomia do Estado da Palestina.


A questão da segurança


Ao longo do documento, diversas medidas são propostas em nome da segurança israelense, como, por exemplo, a manutenção da soberania de Israel sobre as águas territoriais, com a justificativa de que são vitais para a segurança e estabilidade na região.


Em nome da segurança do Estado judaico é autorizado o controle israelense de todos os acessos internacionais ao território palestino, com especial referência à fronteira entre Jerusalém e Al Quds “para que seja oferecida a mesma proteção a israelenses e palestinos”. Além disso, é consentido o uso de dirigíveis, drones e equipamentos aéreos similares, a serem definidos por Israel, para medidas de segurança, a fim de reduzir a presença israelense em território Palestino.


O documento reforça o entendimento de que Israel não seria uma ameaça para a região e de que os Estados Unidos não poderiam esperar que qualquer país, muito menos um aliado próximo como o Estado de Israel, tomasse medidas que comprometessem uma situação de segurança já precária. No entanto, conforme demonstram informações do portal ‘Israel-Palestine Timeline’, de 2000 a 2020 pelo menos 10,007 palestinos foram mortos por alguém do outro lado do conflito, enquanto 1,271 israelenses foram mortos no mesmo período; já de 2000 a 2018, pelo menos 99,968 palestinos e 11,949 israelenses foram feridos por alguém do outro lado - os dados mostram a desproporcionalidade e assimetria com que são tratadas as vidas envolvidas no conflito.


O plano prevê também a desmilitarização total dos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e a finalização de quaisquer programas que “possam servir para incitar e promover ódio ou violência contra os israelenses” - a serem avaliados pelos Estados Unidos de forma conjunta com o Estado de Israel. Caso seja entendido que os critérios de segurança não foram cumpridos, o documento garante a Israel o direito de intensificar a presença militar em todo o território da Palestina. Nesse sentido, a proposta refere que uma solução “realista” daria aos palestinos o poder de se autogovernar sem ameaçar Israel, o que demandaria limitações de “certos poderes de soberania” em algumas regiões palestinas, como a manutenção da responsabilidade de segurança e controle israelense do espaço aéreo a oeste do Vale do Jordão - que já acontece na prática.


Foto: © Al Jazeera


Conforme ilustra o mapa acima, hoje existem 140 checkpoints ao redor da Cisjordânia pelos quais mais de 70 mil trabalhadores palestinos cruzam diariamente. Além disso, há também os chamados checkpoints flutuantes, uma tática policial em contextos de ocupação militar que envolve a organização de um entrave com jipes militares para interromper movimentos desautorizados ou indesejados e para que seja feita a checagem de documentação e busca por contrabando, fugitivos e armas.


É mencionada na proposta de paz a proibição de o Estado de Israel demolir estruturas já existentes na data de publicação deste plano, a menos que assegurando a apresentação das decisões legais e/ou legislativas que o justifiquem, ou que se tratem de demolições punitivas seguindo atos de terrorismo. Essa decisão possibilita, de forma tendenciosa, que se perpetuem os processos de demolição de moradias, tanques e tubulação de água de palestinos sob justificativa de ameaça à segurança israelense, agora com o aval oficial estadunidense.


A questão dos presos


De acordo com dados divulgados pelo B’Tselem, centro israelense de informações sobre direitos humanos nos territórios ocupados, no final de maio de 2020 eram mais de 4,200 presos e detidos palestinos em prisões israelenses - dos quais 2,738 em cumprimento de pena, 991 detidos até o fim do processo judicial, 352 em prisões administrativas e 131 outros detidos. O plano propõe que imediatamente após a sua assinatura sejam libertados todos os aqueles menores de idade, aqueles com idade acima de 50 anos, mulheres e aqueles que tenham cumprido dois terços da pena; e que fique a ser determinado um segundo momento onde sejam libertos aqueles presos que tenham cumprido metade da pena, deixando qualquer outra soltura sujeita ao aval de Israel. Contudo, o documento ressalta que todos os presos soltos “deverão assinar um juramento de promover os benefícios da coexistência entre israelenses e palestinos em suas comunidades, e a exercer uma conduta que seja modelo de coexistência”, restando àqueles que se recusarem a assinar a permanência na prisão.


Nesse sentido, é importante mencionar que os presos palestinos enfrentam condições subumanas, incluindo superlotação, insalubridade, falta de ventilação, falta de acompanhamento de saúde e alimentação inadequada - muitas vezes em prisões administrativas, por tempo indeterminado, sem acusação e sem direito a julgamento -, além de haver relatos de extorsão e tortura por parte dos oficiais. Dessa forma, ainda que exista a possibilidade de soltura, que tipo de acesso a dignidade e a condições de ressocialização essas exigências propiciam?

A questão de Gaza


O plano ressalta a complexidade da situação atual de Gaza e entende que, como resultado das políticas do Hamas, o enclave está se aproximando de uma crise humanitária. Desde junho de 2007, a Faixa de Gaza vive sob bloqueio terrestre, marítimo e aéreo israelense, sob a justificativa de prevenção da entrada de armas e materiais usados para construção de armamento, conforme reforça o plano proposto pela administração americana. Contudo, sob a justificativa do risco à segurança israelense, é restrita a entrada no enclave de todo o tipo de mercadoria, o que precariza as condições de vida e acesso a serviços.


A proposta define que cinco anos após a assinatura do Acordo de Paz e assumindo satisfação total dos “Critérios de Gaza”, o Estado da Palestina deve ter o direito, sujeito a ter cumprido com os requisitos israelenses de segurança e relacionados ao meio ambiente, de criar uma ilha artificial fora da costa de Gaza para desenvolver um porto que sirva a Gaza, bem como um aeroporto para aeronaves de pequeno porte. Até que isso aconteça, o projeto define que o governo palestino tenha acesso aos portos de Haifa e de Asdode, o que dificilmente será autorizado pela administração israelense.


O documento rechaça a presença do Hamas e da Jihad Islâmica na Palestina e define que serão autorizados apenas governos que nítida e explicitamente reconheçam o Estado de Israel, tenham um compromisso com a não-violência e aceitem acordos e obrigações prévias das partes, incluindo o desarmamento de todos os grupos terroristas. Novamente, em nome dos critérios de segurança estabelecidos por Israel, tais exigências violam a possibilidade de construção de um Estado autônomo palestino, sujeitando-o à constante aprovação israelense.


A questão da subordinação institucional


No mais, o plano de paz proposto pelo governo estadunidense exige que os países árabes, junto ao estado da Palestina, deixem de apoiar iniciativas anti-Israel nas Nações Unidas e em outros organismos multilaterais, bem como que abandonem qualquer boicote ao Estado judaico e que se oponham ao movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) - uma campanha global que defende a prática de boicote econômico, acadêmico, cultural e político ao estado de Israel, com o objetivo de pôr fim na ocupação e colonização dos territórios palestinos. Também, determina que a Autoridade Palestina e a Organização pela Libertação Palestina devem abster-se de qualquer participação em organismos internacionais sem a autorização do estado de Israel; e tomar nenhuma ação, e dispensar quaisquer ações pendentes contra o estado de Israel, os Estados Unidos e seus cidadãos frente ao Tribunal Penal Internacional, à Corte Internacional de Justiça e quaisquer outros tribunais.


Em um território historicamente marcado pela disputa de narrativas, não há como esperar que o plano de paz ponha fim ao conflito, uma vez que é garantido ao Estado de Israel o poder de gestão de recursos hídricos, controle de circulação, monitoramento e detenção; enquanto é exigido que o Estado Palestino não participe de quaisquer movimentos ou organismos internacionais que critiquem o processo de ocupação e exponham as violações de direitos humanos cometidas em nome do direito à terra.

Foto: © ABC News


Não obstante, a proposta deve começar a ser posta em prática em meio a uma segunda onda da pandemia do coronavírus na região. Nos territórios entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, o surto de coronavírus não serviu como barreira ou desafio para a contínua violência israelense. Como bem pontua Ahmad Al-Bazz em artigo para o portal de notícias Mondoweiss, enquanto o vírus não faz discriminação entre israelenses e palestinos, o Estado de Israel certamente faz. E acrescenta “isso não é uma tentativa de politizar o vírus, mas de afirmar o óbvio: tudo nesse país é político e afetado pela estrutura colonial”. A situação dos palestinos se diferencia da atual conjuntura de quarentena global porque, com confinamentos impostos pelos militares, adiciona-se o elemento de que manter-se em isolamento não necessariamente garante segurança. Pelo contrário, a população se vê ainda mais exposta às práticas do exército israelense de remoção forçada e destruição de moradias, tanques d’água e encanamentos como forma de punição coletiva.


Nos últimos dias, à medida que o dia 1º de julho se aproximava, diversas manifestações aconteceram ao redor de Israel e dos territórios palestinos na Cisjordânia e em Gaza. Do lado palestino, os protestos vêm eclodindo desde a metade de maio, quando centenas de palestinos foram às ruas em diversas regiões na Faixa de Gaza. Desde então, outras centenas de manifestantes das cidades de Ramallah, Nablus e Jericó e das comunidades de Udala, ao sul de Nablus, Al-Tuwana, ao sul de Hebron, e Zubeidat, ao norte de Jericó, protestaram contra o plano de anexação do Vale do Jordão. Do lado israelense, nas últimas semanas uma coalizão internacional de organizações judaicas progressistas contatou diplomatas israelenses em 18 consulados e embaixadas ao redor do mundo a fim de apresentar uma mensagem de oposição à anexação unilateral dos assentamentos no Vale do Jordão. Em Tel-Aviv e em Petah Tikva, a leste da cidade, eclodiram manifestações no início e no fim do mês de junho contra a proposta do plano paz, alertando que a anexação dos assentamentos na Cisjordânia destruiria qualquer projeção de solução de dois estados.


Como bem pontuou Max Fisher, em artigo para a Vox, é verdade que a maior parte dos israelenses são judeus e a maior parte dos palestinos são muçulmanos, mas a religião não é o principal combustível do conflito. Segundo ele, não é um embate entre judaísmo e islamismo sobre diferenças religiosas, mas um embate entre nacionalidades - israelense e palestina - sobre questões históricas de direito a terra.


Manifestações estão sendo convocadas para hoje, 1º de julho, na Palestina, nos Estados Unidos e Canadá, na Coréia do Sul e em diversos países europeus. A proposta de anexação é a culminação lógica de meio século de ocupação, expansão e colonização israelense em território palestino. Proposto pela administração de Trump, autoriza o processo de controle militar, sob o qual os palestinos já vivem desde 1967, sem que o Estado de Israel seja responsabilizado e punido pelas graves violações de direitos humanos cometidas contra a população palestina.

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Referências:


AUTORIDADE Nacional Palestina rompe relações com Israel e EUA após plano de paz de Trump: “rejeitamos totalmente o acordo. não há lugar na mesa de negociações para nenhuma parte deste plano”, afirma Mahmoud Abbas. “Rejeitamos totalmente o acordo. Não há lugar na mesa de negociações para nenhuma parte deste plano”, afirma Mahmoud Abbas. Cairo/Madri: El País, 01 fev. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-02-01/autoridade-nacional-palestina-rompe-relacoes-com-israel-e-eua-apos-plano-de-paz-de-trump.html. Acesso em: 30 de jun. 2020. DESAFIO da anexação parcial da Cisjordânia marca novo Governo de coalizão em Israel: pacto de netanyahu e gantz prevê aplicar a soberania aos assentamentos e o vale do jordão. Pacto de Netanyahu e Gantz prevê aplicar a soberania aos assentamentos e o vale do Jordão. Israel: El País, 12 mai. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-05-12/desafio-da-anexacao-parcial-da-cisjordania-marca-novo-governo-de-coalizao-em-israel.html. Acesso em: 30 jun. 2020. FRIEDMAN, Gabe. Israel could annex parts of the West Bank on July 1. Here’s what you need to know. Israel: Jewish Telegraphic Agency, 10 jun. 2020. Disponível em: https://www.jta.org/2020/06/10/israel/israel-could-annex-parts-of-the-west-bank-on-july-1-heres-what-you-need-to-know. Acesso em: 30 jun. 2020. HADDAD, Mohammed. Palestine and Israel: Mapping an annexation: what will the maps of palestine and israel look like if israel illegally annexes the jordan valley on july 1?. What will the maps of Palestine and Israel look like if Israel illegally annexes the Jordan Valley on July 1?. Palestina: Al Jazeera, 26 jun. 2020. Disponível em: https://www.aljazeera.com/indepth/interactive/2020/06/palestine-israel-mapping-annexation-200604200224100.html?utm_campaign=later-linkinbio-aljazeeraenglish&utm_content=later-8165330&utm_medium=social&utm_source=instagram. Acesso em: 30 jun. 2020. ISRAEL: Jewish-Arab protest against plans to annex parts of West Bank. Israel: EuroNews, 07 jun. 2020. Disponível em: https://www.euronews.com/2020/06/07/israel-jewish-arab-protest-against-plans-to-annex-parts-of-west-bank. Acesso em: 30 jun. 2020. ISRAEL West Bank annexation rejected by European MPs in letter. BBC News, 24 jun. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-middle-east-53139817. Acesso em: 30 jun. 2020.

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*Bibiana Waquil Campana é graduanda em Serviço Social pela UFRGS. É membro do Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE - UFRGS) e trabalhou reportando violações de direitos humanos na Palestina em 2019